encomenda de viagem

8 coisas para pensar antes de pedir encomenda para viajantes

postado em: Colunas, Planejamento | 0
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A ideia desse texto nasceu na minha primeira viagem para os Estados Unidos, quando me senti incomodada com a quantidade e qualidade de encomendas que as pessoas me fizeram. Por esse motivo, resolvi conversar com alguns amigos, com os quais troquei informações sobre como nos sentimos a respeito das famigeradas encomendas e de que forma nós topamos ou não fazer esse “serviço”. A partir daí, montei esse pequeno guia para vocês que ajuda a pensar no que deve ser considerado ao pedir ou aceitar uma encomenda de viagem.


1. Você tem intimidade com quem está indo viajar?

A primeira coisa que eu sugiro que você pense é no motivo da viagem da pessoa. Eu particularmente gosto de viajar de férias, ou seja, tiro esse tempo para descansar e principalmente passear. Isso quer dizer que eu tenho meus próprios afazeres, meu roteiro e que eu investi tempo e dinheiro planejando e vivendo a viagem.

Portanto, essa é minha primeira dica: somente peça coisas para pessoas com quem você tem intimidade e negocie tudo sempre pensando em facilitar o máximo possível para a pessoa trazer seu produto. Lembre-se de que a intimidade deve ser suficiente para que seu amigo/parente se sinta à vontade para negar seu pedido e você não se sentir ofendido ou sem graça com a negativa. Caso a pessoa tope trazer suas coisas, facilite! Vamos falar mais disso nas próximas dicas.

Se alguém me pede uma encomenda, provavelmente terei que parar um pouco o que escolhi fazer para ir atrás do produto da pessoa. Esse é um cenário. O outro cenário é que o produto seja comprado pela internet por quem encomendou e entregue no hotel, dessa forma eu não terei perdido tempo, mas certamente vou perder algum espaço na minha mala. Com isso quero dizer que: se você não for uma pessoa que eu gosto muito e que seja super próxima de mim, não vou trazer a sua encomenda. Entenda que isso não é pessoal e que os viajantes negam encomendas ou dão desculpas para preservar o lado prazeroso e facilidades da viagem, como uma mala mais leve, logo mais fácil de fechar e carregar.

2. Existe cota alfandegária

Vou falar alguns pontos básicos a respeito da cota porque não é objetivo desse texto ensinar como importar coisas, mas sim como tratar a sua amiga importadora.

Quando uma pessoa viaja, a Receita Federal Brasileira permite a entrada no país de produtos até determinados valores isentos de impostos. Passou do valor, paga o imposto. O básico que você precisa saber é (saliento que estou falando de viagens por via área e marítima. Se for terrestre, fluvial e lacustre os valores abaixo se alteram. Valores válidos para o ano de 2019):

  • São permitidos produtos isentos de impostos até um total de 500 dólares ou o equivalente em outras moedas. Esse valor é por pessoa e intransferível;
  • Além desse valor, também é permitido gastar mais 500 dólares ou equivalente em outra moeda no free shop quando você retorna ao país. Isto é, após você desembarcar de volta ao Brasil. Essa cota também é pessoal e intransferível;
  • Não só você tem que se preocupar com o valor monetário dos produtos como também com a cota de quantidade. Se a pessoa te pedir bebidas alcoólicas, por exemplo, o limite são 24 unidades, limitadas a 12 por tipo de bebida;
  • Limite para produtos em que é possível alegar bem de uso pessoal (não tarifado): um smartphone, um relógio, uma câmera (profissional ou não). UM smartphone. Isso quer dizer que se você entrou no país estrangeiro com o seu e saiu com mais um novo, o novo vai ser taxado. Você tem que voltar ao Brasil com um só! Demais produtos, como roupas, cosméticos e afins, também podem ser declarados como de uso pessoal, mas para que a receita aceite não taxar, devem ser observadas as circunstâncias da viagem. Por exemplo, se eu trouxer 20 blusas da GAP de uma viagem de 15 dias provavelmente não vão acreditar que são todas minhas e podem querer taxar.

Os valores dos impostos são assim: o que ultrapassa os 500 dólares permitidos é tarifado em 50% do valor que ultrapassou a cota. Exemplo: comprei algo de 1000 dólares, então ultrapassei a cota em mais 500 dólares. 50% desse valor são 250 dólares, ou seja, o imposto devido é de 250 dólares. Caso você resolva passar na fila de nada a declarar e for pego, além do valor do imposto há uma multa. Se você quiser informações detalhadas a respeito das cotas monetárias e quantidades de produtos permitidas, além da forma como é calculado o imposto e a multa, visite o site da Receita.

Mala que precisei comprar em Orlando para acomodar coisas que comprei para mim, presentes e encomendas – para as pessoas que eu gosto!

Nessa minha viagem aos Estados Unidos uma pessoa extremamente distante com quem eu não tenho intimidade nenhuma me pediu um iPhone. Demorei um tempo pra responder porque estava decidindo se eu ia xingar e falar não ou só falar não. Acabou que eu só falei não porque eu acho que sou uma pessoa uma pouco mais consciente do que quem me pediu.

Segunda dica da Débora para não ser um sem noção ao pedir encomendas: lembre-se de que a pessoa que está viajando pode querer comprar coisas para si própria ou presentes e que o limite isento de impostos é relativamente bem pequeno. Assim, entenda que a prioridade para o não pagamento de imposto é do viajante e ele pode nem querer trazer a sua encomenda. Se trouxer e seu produto ultrapassar o valor isento de impostos alfandegários, quem deve pagar pela sua parte é você!

3. Correios e transportadoras não trabalham de graça, por que seu amigo deveria?

Sabe essa caixa comprida? É uma guitarra que eu trouxe para o meu irmão. Foi entregue no hotel e só precisei carregar até o aeroporto.

Uma coisa que meus amigos que viajam mais comentaram comigo foi sobre o frete. Muitos viajantes não aceitam ir atrás do produto encomendado e pedem ao amigo/parente que fez o pedido que faça a compra pela internet e solicite a entrega em algum dos hotéis.

Dessa forma, como falei lá no início do texto, o incômodo ao viajante fica só na perda de espaço na mala. Assim não há perda de tempo de momentos de lazer ou descanso na viagem. No entanto, algumas pessoas muito engraçadas (para não usar termos piores) reclamam que “ah, mas se eu comprar pela internet tenho que pagar frete!”. Amigão, e sua colega que tá indo ali pegar o metrô e gastar 40 minutos pra buscar sua encomenda, esse trajeto é de graça? Acho interessante as pessoas serem egoístas a esse ponto. Muita gente que pede encomenda entrega o dinheiro que corresponde unicamente ao preço do produto e esquece que o amigo vai ter que se deslocar – e isso tem custo! – para buscar. E pior do que o custo de um metrô, é o custo de perder tempo de uma viagem.

Terceira dica para não ser um sem noção: a regra é sempre tentar facilitar a vida do seu amigo que vai trazer suas coisas! Peça pela internet e marque a entrega no hotel (melhor opção) e, se não tiver jeito MESMO de fazer assim (algumas lojas nos Estados Unidos não entregam em endereços de hotéis, por exemplo), pesquise lojas o mais próximo possível do hotel da sua amiga para evitar grandes deslocamentos que geram perda de tempo e dinheiro.

4. O espacinho na mala que você quer para sua encomenda pode ser precioso para quem viaja

Essa é minha mala antes de viajar, parece cheia, mas na verdade ela está bem vazia (se eu tivesse compactado essas roupas não teria enchido nem 50% da mala). Ainda cabia MUITA coisa.

Você já imaginou ou já viveu a experiência de ficar 15, 20 ou 30 dias sem lavar suas roupas? Pois é exatamente isso que acontece com quem viaja! Lavar roupas em hotéis é complicado de se fazer sozinho e caro pra mandar para a lavanderia interna. Ir a lavanderias de rua gera gasto de tempo, embora às vezes seja a melhor opção. Dessa forma, quando uma mala é feita é preciso pensar em uma quantidade ideal de roupas e objetos de uso pessoal para o período de viagem. Costuma ser uma boa quantidade mesmo para quem não liga muito pra roupas e não esteja preocupado em variar.

Isso sem contar que alguns países requerem roupas especiais, como casacos térmicos (que são grandes e bem pesados), luva, cachecol, botas…Tudo isso obviamente toma espaço na mala.

Outro ponto importante é que quando eu viajo sempre tiro um tempo e separo um dinheiro pra comprar lembranças para as pessoas mais próximas. Isso quer dizer que sim, eu vou demandar espaço adicional da minha própria mala pra trazer as coisas que eu quero pra mim e para os outros.

Quarta dica: certifique-se de que sua encomenda é pequena ou de que o viajante terá espaço para trazê-la. Você já ouviu falar em cubagem? É uma forma que os Correios e transportadoras tem para precificar o valor do frete. Às vezes algo é extremamente leve, mas o volume ocupado é enorme. Um bicho de pelúcia grande, por exemplo, é leve. Mas ocupa um puta espaço na mala.

5. Quanto mais coisas vão entrando na mala, mais pesada ela fica

Se você adiciona mais coisas à mala, ela ficará mais e mais pesada. Alguém vai carregar essa mala. Como eu não sou a rainha da Inglaterra, viajo com orçamento limitado e valorizo MUITO o meu dinheiro. Ou seja, eu prefiro comer bem do que pagar um táxi, por exemplo. Isso faz com que eu precise me deslocar utilizando ônibus e metrôs. Alguns lugares são menos acessíveis do que outros. Na minha última viagem eu puxei mala embaixo de sol, de chuva, escada acima e abaixo.

Eu extremamente feliz depois de descer as escadas do metrô com uma mala muito pesada e mochila nas costas. Acessibilidade zero em algumas estações.

Além do fato de peso ser um incômodo pra quem tem que carregar, é também um problema na hora de despachar a mala. Se for constatado excesso de bagagem, o passageiro deverá pagar uma tarifa para a companhia aérea. Assim, quem está viajando pode avisar para quem realizou a encomenda sobre o risco de excesso de bagagem. É interessante ter uma balança portátil para poder monitorar o peso da mala. Com a cobrança pelas companhias aéreas pelo despacho das malas, esse ponto é ainda mais sensível nessa história toda de pedir encomendas.

Quinta dica: pense no peso daquilo que você está pedindo, porque uma pessoa irá carregar. Se possível, deixe para que seu produto – se for mais pesado ou volumoso – seja comprado ou entregue no hotel nos últimos dias da viagem, para que sua amiga se movimente por menos tempo com a mala mais cheia. Entenda que sua colega pode te avisar que a mala já está bem cheia e que pode não ser possível trazer seu produto por risco de cobrança de excesso de bagagem.

6. Compras internacionais são feitas em moeda estrangeira e isso faz uma enorme diferença

Uma coisa que me deixou com muita raiva foi ter ouvido “te pago quando você chegar” de pessoas que assumiram que eu ia usar do meu dinheiro pra trazer algo pra elas. Vamos aos detalhes da moeda estrangeira:

  • Quando alguém viaja, essa pessoa leva uma quantidade limitada de dinheiro;
  • No geral, as pessoas levam um valor que considera: estadia (se já não estiver paga), alimentação, transporte, passeios, compras pessoais e uma “gordura” para pequenas emergências;
  • Eu nunca levei nem vou levar uma quantia de dinheiro pensando “se alguém me pedir alguma coisa, eu tenho dinheiro pra pagar a encomenda dele”.

Falo por mim: nunca viajei jogando dinheiro pra cima como o Sílvio Santos. Além do valor em espécie, levo meu cartão de crédito desbloqueado para emergências. Trocando em miúdos, o que quero dizer é o seguinte: se eu compro uma coisa pra você que certamente não estava no meu orçamento, estou tirando dinheiro de alguma refeição minha ou de algum passeio.

Ah, Débora, mas então compra no cartão de crédito! Temos mais alguns problemas, pessoal! Vamos lá! As compras internacionais são cobradas em dólar – se forem feitas em outras moedas serão convertidas para dólar americano para depois serem convertidas em reais.

Aí nós temos a cotação que você vê na TV, que passa no Jornal Nacional, que é o dólar comercial. Se aparecer que o dólar está 3,82, pode saber que no meu cartão vai estar uns 4,05, porque o dólar do cartão fecha mais próximo com o dólar turismo, que é sempre mais caro.

Outra coisa: o valor da compra no cartão oscila muito. Se eu compro hoje, dia 09 e minha fatura fecha no dia 25, o valor da compra vai corresponder a quanto estava o dólar no dia 25. Então, não há como controlar o preço exato. (Nota: isso vai mudar no início de 2020, quando a compra será mantida no valor do dólar do dia em que o produto foi adquirido no cartão).

Mais um detalhe: compras internacionais feitas no cartão de crédito tem incidência de 6,38% de IOF. Esse valor já sobe um pouco mais a sua compra. Muita gente pede encomenda para ser paga no cartão e não conta com isso.

Quer ainda mais um detalhe? Ali em cima eu te contei que se eu compro no dia 09 e a fatura fecha no dia 25, o valor do dólar vai ser o do dia 25. Mas digamos que minha fatura fecha no dia 25 mas vence no dia 30 e eu a pago no dia 30. No mês que vem, vou receber no meu cartão uma cobrança ou restituição da diferença do dólar. Isso quer dizer que se o dólar no dia 30 está mais alto que do dia 25, eu vou pagar uma diferença. Se estiver mais baixo, eu vou receber uma restituição da diferença lançada na minha fatura.

Agora, vamos lá. Você nem tem tanto contato comigo assim, me pediu uma coisa, passei no cartão, te passei o valor que eu fiquei sabendo no dia 25 e no dia 30 dá uma diferença. Eu vou ter que te procurar pra devolver ou te cobrar dinheiro. Olha que coisa mais cheia de mimimi e chata.

Saudades dólar a 2 reais…

Sexta dica da Débora: se você realmente quer muito alguma coisa, há espaço na mala, é fácil para sua amiga pegar seu produto e ela topou trazer pra você, dê o dinheiro antes. Combine com sua amiga se você irá entregar em reais ou já na moeda estrangeira. Essa é a forma mais fácil e menos constrangedora para ambos. Se você não teve oportunidade de dar o dinheiro antes, assuma que sua amiga vai passar sua compra no cartão e esteja disposto a pagar qualquer valor que o dólar resolver ter e o IOF de 6,38% que incide sobre sua compra. Gente, vai por mim que mexer com dinheiro é sempre complicado, então mais uma vez vai meu lembrete: tenha intimidade com a pessoa para quem você está pedindo favor.

7. Como acomodar sua encomenda na bagagem e o drama do furto e extravio

Normalmente as pessoas viajam com dois tipos de bagagem quando é uma viagem mais longa: a bagagem de mão e a bagagem despachada. Se você pede um produto muito frágil ou que seja muito caro, geralmente é mais recomendável que seja acomodado na bagagem de mão. As malas em aeroportos são jogadas de um lado pro outro e não há muito cuidado, de forma que o que está no interior dessas malas pode ser danificado.

Outro problema são os furtos. Mesmo que sua mala esteja fechada com um cadeado, é possível que ela seja aberta e o conteúdo pode ser violado. Aquilo que você tanto sonhou e esperava que chegasse ao Brasil pode nunca chegar às suas mãos. E um outro problema que também é bem dramático é o extravio de bagagem. Já pensou suas coisas dentro de uma mala que é encontrada muito tempo depois ou pior, nunca é localizada?

Então, além de tuuuudo o que eu falei ali em cima, ainda temos mais esse problema de transporte. Apesar de geralmente ser mais seguro transportar na bagagem de mão, nem todo tipo de produto é permitido nela (líquidos de mais de 100 ml, objetos pontiagudos, etc.) e também não é muito confortável para seu colega que está trazendo suas coisas ficar carregando peso de um lado pro outro que não será despachado. Por outro lado, se você topar que suas coisas entrem na bagagem despachada, esteja ciente dos inconvenientes que citei acima. É um risco que você precisa calcular se vale a pena. 

Dica número sete: se algo acontecer com seu produto, o prejuízo deve ser seu e não de quem tentou te fazer um favor.

8. Você encara seu pedido com um favor, mas na verdade é mais como um serviço

Minha irmã chegando na Suíça, ainda sem saber o tanto que ia rodar com essas malas pela Europa. Hahaha

Gostaria de usar o último tópico para uma reflexão. Geralmente quem faz pedidos encara a busca, acomodação e transporte da encomenda como um favor que sua colega, amiga ou parente está fazendo. Mas se você parar para pensar, isso parece muito mais um serviço. Em brinquei em alguns momentos aqui lembrando vocês sobre o trabalho de Correios e transportadoras por um motivo: transportar coisas dá um certo trabalho. Tanto é que existem pessoas que disponibilizam espaço na mala em troca de – adivinhem! – dinheiro! Porque afinal de contas essa logística de encomendas pode ser encarada como um serviço.

Fiquei sabendo que existem essas duas plataformas que conectam pessoas que estejam vendendo espaço em suas malas e pessoas que querem comprar: Canubring (traduzido do inglês é “você pode trazer?”) e Entrusters. Detalhe: não estou recomendando nenhuma das duas porque nunca utilizei e não conheço a reputação, mas se te interessar você pode ir lá buscar mais informações! Provavelmente existe até mais gente fazendo esse serviço.


Por fim, gostaria de dizer que tudo que eu já trouxe foi com o maior carinho do mundo e que continuarei trazendo coisas para as pessoas especiais, sejam presentes que eu quero dar ou as encomendas mesmo. É claro que quando for necessário irei falar não ou criar condições que facilitem minha vida pra trazer o que for pedido. Mas todo esse texto foi a tentativa de criar um guia para ajudar quem quer pedir coisas a pedir com mais tato e consideração, além de ser um informativo para as viajantes saberem sobre o que devem pensar no momento de aceitar ou não uma encomenda. Boa viagem!


Débora Lopes

A profissão oficial é psicóloga, mas faz um monte de coisas. Devoradora de livros, maratonista de seriados, mãe de cachorro... Débora é uma jovem idosa que jamais recusa um café com os amigos. Ama viajar, especialmente para lugares frios. Vive em Belo Horizonte sonhando com o Canadá.

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